29 de ago. de 2010

A MENSAGEM DO FUTEBOL


Foto afanada do site "Muitas bocas no trombone" 

Existe todo um ritual de preparação.
Lavar e passar a camisa, comprar o ingresso. Não menos importantes são os hinos que entoam antecipando vitória.
Mais tarde, a decisão de que rumo seguir. Melhor ir a pé junto com a torcida. Estacionar nas redondezas pode variar de 8 até 40 reais o período do jogo.

Entrar no estádio é como uma celebração. O templo dos adoradores da bola vai sendo preenchido cedo por seus fiéis.
Os primeiros brados são para as musas do alvinegro que chegam revirando suas bandeiras em volta do gramado.

O cenário mostra um sol fulgurante. Fortuitos os que estão nas cadeiras numeradas. Ali há sombra e sucessivas rajadas de vento. Melhor ainda para quem fica na área VIP – onde além de ar-condicionado existe atendimento especial, vista privilegiada e a almejada água gelada.

Quem está ali cedo cercando os invasores, inibindo os espertos e cortejando os afortunados é Valmir Celestino. Chega meio-dia. E tudo bem.
O problema é quando começa o jogo.
Um vai e vem incessante e a dificuldade de dar uma espiadinha na partida.

- Corinthiano?

- Não!

Eis seu desabafo: "Já teve vez que eu deixei de passar o dia com meu pai pra estar aqui. No dia dos pais. Eu podia até arranjar alguém, mas eu vim. É uma coisa que é independente de clube. Trabalho aqui há 3 anos. Tenho acompanhado as derrotas e vitórias do Corinthians. Dizem que a gente muda com o tempo, mas eu sou de família sãopaulina nata. Só que me admira essa torcida aí. Eu acompanho. Eles podem tá ganhando ou perdendo e eles tão cantando. Chega a ser de arrepiar. Tô falando pelo que o futebol representa. É que eu (engasgando, quase sem voz) eu sou apaixonado por futebol”.

As gotas de suor surgem no rosto quase se encontrando com as lágrimas que dimanam daquele corpanzil truculento e só mais tarde revelado tão sensível.

Ele pára.
Não pode continuar.
A mão trêmula o tempo todo tentando esconder o rosto com o embaraço de confessar que sabe da ternura e lealdade adversária.

De costas para o campo e para a terra de concreto, ele imagina uma possibilidade. Um mundo como o daquela torcida. Fiel. Mas não há mais tempo.

O caldeirão de fanáticos começa a entrar em ebulição. E um surto de gritos invade o Pacaembu.

Não se ouve mais nada, exceto o louvor à chegada da equipe. Só há espaço para uma voz. Um coro não improvisado – mas espontâneo – que trabalha com o menor sinal de um ídolo em campo.

E subitamente o tobogã – lotado – começa a ganhar cobertura. Desce, imponente, sobrevoando a torcida como um pássaro desapressado, a bandeira da República Popular do Corinthians. “Uma nação com mais de 30 milhões de loucos”.

Olho para Valmir – já distante – e ele sorri como quem pergunta “agora você entende?”.

Um falso silêncio.
A espera então é pelo apito de Célio Amorim.
Ronaldo já está lá. Robusto, desajeitado, devagar, cansado. Perdendo dribles, ganhando outros. Acertando passes, errando outros. Mas ainda grande. Ainda um fenômeno.

Uma estrela eterna lhe foi pregada na alma.

O adversário? Vitória da Bahia. Um mero coadjuvante nesse filme de quase 100 minutos.
Podia ter aberto o placar, mas não quis. Deixou a bola rolar rasteira em direção ao gol sem Júlio César.

A bola não se engana. É alvinegra. E erra – faceira – o caminho da rede só esperando. Esperando... por Iarley que aos 11 minutos cumpriu o papel de trazer felicidade à nação com mais de 30 milhões de loucos.

Desajeitados, os rubro-negros tentam brilhar no campo metade sol, metade sombra. Porém, só existe luz para Jucilei. O garoto paranaense nunca antes titular de uma série A. Nunca antes visto fora do ex-J. Malucelli, hoje Corinthians Paranaense da Série C do Brasileiro.

Jucilei – o volante de 22 anos que faz o passe perfeito para Ronaldo. O mesmo Ronaldo que um dia ele viu brilhar na seleção brasileira pelo televisor da sala de 3 m².

Jucilei que hoje tem o nome entoado pela nação com mais de 30 milhões de loucos.

A nação que agora também tem como ídolo Elias. Meia que não faz seu trabalho pela metade. Corre de um lado ao outro do campo como uma bola de pingue-pongue. O mesmo Elias que rouba a bola sorrateiro na grande área como uma lebre atrás da presa.
Aquele, que aos 47 minutos do primeiro tempo disparou do meio do campo para deixar para Gabriel, que fez o passe perfeito para Paulinho ampliar o placar.

Na câmera lenta imaginária que me acompanha eu vejo a arte.

A delicadeza de ser certeiro e a audácia de tentar ser o melhor.

Na torcida, apertada, me espremendo como quem não quer ser um incômodo, a relação é de intimidade. Quase à beira do gramado parece fácil ver os craques. Mas descrevê-los é tarefa árdua. Não há como fazê-lo na saída de Ronaldo para o vestiário – que não tem tempo de acenar para a torcida – porém é aplaudido.

Uma nuvem de mosquitos cerca o torcedor ao lado. Mas quê importa?
É preciso observar a nova camisa em comemoração aos 100 anos do Timão, completados no próximo dia primeiro. Atentar ao campo, sentir cada momento, viver a mensagem do futebol.

A honra dos rubro-negros chega silenciosa aos 37 minutos do segundo tempo. Kléber Pereira – que não teve chance de ser aclamado. Só porque a bola foi trocada no intervalo...

Vilmar é quem sabe do que fala. E tem a sensibilidade de reconhecer.
Não seria menos emocionante uma derrota.
E não há quem discorde:
“Me admira essa torcida aí”.




Por Silvia Valim

3 comentários:

  1. nossa que alegria contagiante que deu esse seu texto ...

    maravilhoso ... quase virei conrintiano sério ... Top ,, você tem que dar um jeito e mandar para o Sócrates e para o Juca Kfouri

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  2. Fantástico. Gostaria de ver mais textos assim sobre o futebol.
    É a paixão que falta no nosso meio.
    Parabéns.
    Zé Roberto

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